Associação de Socorros Mútuos “4 de Setembro de 1862”

Prevenção do suicídio

O suicídio é um fenómeno complexo que tem vindo a ser alvo de atenção e estudo ao longo dos tempos. Ocorre em todas as regiões do mundo, e é transversal a todas as faixas etárias e culturas. É um problema de saúde pública grave e, estando entre as primeiras causas de morte violenta, tem um impacto humano com um efeito multiplicativo de profundo alcance.

Estima-se que a dimensão da problemática do suicídio deverá ser bem mais grave do que é atualmente reconhecida pela imprecisão geral das estatísticas acerca das causas de morte (Gusmão & Quintão, 2013), aliado ao facto desta temática ser um assunto delicado, vulnerável, de natureza privada, que lhe confere um estatuto tabu na sociedade atual.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), por cada suicídio consumado existem cerca de 20 tentativas de suicídio (a cada 40 segundos morre alguém por suicídio e a cada 3 segundos uma pessoa atenta contra a própria vida), daí a sua prevenção ser reconhecida como uma prioridade em saúde pública (OMS, 2019).

Todos os anos morrem em Portugal cerca de 1000 pessoas por suicídio (INE, 2019), sendo que estes valores têm-se mantido estáveis ao longo do tempo. Esta estabilidade tem sido observada em todas as regiões do país, excepção feita à RAM, onde se tem verificado um rebaixamento da tendência da taxa de suicídio ao longo dos anos.

A OMS definiu suicídio como um “ato deliberado, iniciado e levado a cabo por uma pessoa com pleno conhecimento ou expectativa de um resultado fatal” (2002). A Ideação Suicida pode apresentar-se sob a forma de desejos e/ou plano para cometer suicídio, sem que haja necessariamente passagem ao ato e é diferente de pensamentos sobre a morte.

A perda de relações afetivas, o bullying, os desafios diários, académicos ou profissionais, os problemas económicos e consumos de substâncias estão relacionados com um aumento do risco de suicídio.

“Os Suicídios são apenas a ponta do iceberg em termos de problemas de saúde mental (…) sempre que há um aumento do número de suicídios há também um aumento de tentativas de suicídio e de novos casos de depressão” (Stuckler, McKee & Basu, 2011 cit. Por DGS, 2021). Ademais, sabe-se que 90% das pessoas que cometem suicídio são portadoras de doenças mentais diagnosticáveis (e tratáveis).

Quando falamos sobre esta temática encontramos vários mitos que lhe estão associados. Já todos ouvimos dizer frases como: “A pessoa que fala sobre suicídio apenas quer chamar à atenção”, “Os indivíduos suicidas querem mesmo morrer ou estão decididos a matar-se”, “Quando um indivíduo mostra sinais de melhoria ou sobrevive a uma tentativa está fora de perigo”, “A tendência para o suicídio é sempre hereditária”, “Se alguém falar sobre suicídio com outra pessoa está a transmitir a ideia de suicídio a essa pessoa”, “O suicídio só acontece aos outros”, “Os indivíduos que tentam ou cometem suicídio têm sempre uma perturbação mental”, “O suicídio é sempre impulsivo e acontece sem aviso”, “Após uma tentativa de suicídio a pessoa nunca mais volta a tentar matar-se”, “Quem se magoa de propósito é louco”, entre outras.

 Estas frases feitas são falsas. Quando alguém manifesta a ideia de suicídio devemos, sempre, valorizar e perceber melhor o seu sentido, porque muitos suicidas apresentam sintomas psicopatológicos, comunicam previamente a sua intenção, mostram ambivalência e procuram previamente ajuda. Uma história familiar de suicídio é um factor de risco importante e pode ocorrer em todas as pessoas, independentemente do nível social ou familiar, sendo que, uma pessoa que tem uma tentativa prévia apresenta um muito maior risco de cometer suicídio.

Quem se magoa de propósito ou considera o suicido, está em sofrimento e pode ser ajudado!  Falar com alguém sobre isso, faz com que a pessoa sinta que da parte do seu interlocutor há interesse no seu sofrimento.

Para continuar a impulsionar a prevenção encontram-se um conjunto de estratégias centradas na redução dos danos imediatos e a longo prazo do comportamento suicida. Nestas estratégias incluem-se algumas de carácter mais genérico e outras para populações de maior risco. Estes programas estão direccionados para promover melhores competências e colmatar lacunas no âmbito familiar, laboral e social.

Desenvolvido pelo Grupo  de  Trabalho da Prevenção do Suicídio e Comportamentos Autolesivos do Serviço de Psicologia Serviço de Saúde da Região Autónoma da Madeira (SESARAM, EPERAM)

Montepio Nossa Senhora da Nazaré – Torres Novas

Suicídio: a epidemia invisível

O suicídio continua a ser uma causa de morte muito relevante mundialmente, com cerca de 800 mil mortes em 2015 (78% das quais nos países de menores rendimentos) e uma taxa anual de 10,7 suicídios por 100 mil indivíduos (dados da OMS), apesar de uma significativa variabilidade deste número quando são considerados os diferentes países, grupos etários e factores sócio-demográficos. Se por um lado a taxa de suicídio tem vindo a diminuir nos países ocidentais, tem ocorrido aumento nos países menos desenvolvidos.

O suicídio será responsável por cerca de 1,4% das mortes prematuras mundialmente. A Europa apresenta uma das taxas mais elevadas de morte por suicídio, sendo que em Portugal andará pelos 10 a 14,9 por 100 mil indivíduos por ano. Esta taxa aumenta de modo geral nas faixas etárias mais velhas.

O suicídio encontra-se em segundo lugar como causa de morte prematura na faixa etária dos 15 aos 29 anos (precedida pelos acidentes de viação) e em terceiro se considerarmos a faixa etária dos 15 aos 44 anos.

É mais comum no sexo masculino (quase duas vezes mais frequente), enquanto as tentativas de suicídio são mais frequentes no sexo feminino. Estas últimas são cerca de 30 vezes mais comuns que o suicídio consumado.

O suicídio pode ser considerado num continuum, desde as ideias de morte passivas aos pensamentos activos sobre o suicídio, planos e intenção de o efectuar.

Muitos suicídios, tentativas de suicídio ou gestos auto-lesivos sem intenção suicidária, ficam por notificar, sobretudo nos países de menores recursos económicos e por diversas razões, nas quais se incluem o estigma existente na sociedade relativo a estas situações e a legislação em vigor nesses países.

A maioria dos casos de suicídio está relacionada com a presença de patologia psiquiátrica (60 a 98%). O método escolhido varia consoante o país, a disponibilidade e factores culturais.

As perturbações depressivas e outras perturbações do humor são as doenças psiquiátricas mais frequentemente associadas ao Suicídio.

Metade dos casos de suicídio têm, na sua base, uma destas patologias, sendo o risco de suicídio cerca de 20 vezes superior nos doentes com depressão. Tendo em conta que a depressão é a patologia mais fortemente relacionada com o suicídio, é preocupante o facto de mais de metade dos doentes não se encontrar em tratamento ou não receber um tratamento adequado.

Outras doenças psiquiátricas com um enorme impacto nas taxas de mortalidade por suicídio, são a esquizofrenia e outras psicoses, a perturbação de stress pós traumático, o abuso de substâncias, sobretudo de álcool, as perturbações da personalidade nomeadamente a perturbação borderline e as doenças do comportamento alimentar.

A presença de algumas situações não psiquiátricas, com o cancro, o HIV e a dor crónica, sobretudo quando motivam incapacidade funcional marcada, associam-se também a um aumento significativo da mortalidade por suicídio.

São factores de risco para suicídio que devem ser foco de especial atenção, a pertença a certos grupos profissionais como o dos polícias e médicos ou a grupos como o dos veteranos de guerra, o desemprego e baixos recursos económicos, o isolamento ou escasso apoio social, a violência doméstica, a residência em ambientes urbanos e em condições habitacionais inadequadas e a existência de tentativas de suicídio prévias.

Como possíveis sinais de alarme para o risco de suicídio, há a considerar a tristeza marcada e persistente, o pessimismo, a verbalização de que “a vida não faz sentido ou não vale a pena”, a apatia, a letargia, a angústia, as alterações do padrão do sono e do apetite, as dificuldades de relacionamento inter-pessoal, o abuso de tóxicos, o insucesso escolar e os os comportamentos agressivos ou impulsivos. Algumas pessoas despedem-se de familiares e amigos, ou oferecem objectos que lhes são significativos.

Há que assegurar que a pessoa em sofrimento recorra o mais precocemente possível à ajuda necessária, nomeadamente aos cuidados de saúde primários e consultas de especialidade (como as consultas de psiquiatria e psicologia) e em casos de risco imediato de suicídio, ao serviço de urgência do hospital da área de residência.

Tendo em conta que a maioria dos adultos que se suicidou, recorreu aos cuidados de saúde primários no ano anterior, estes estão em situação privilegiada no que diz respeito à identificação de casos de risco e início de tratamento, com referenciação para outros técnicos de acordo com o considerado necessário.

Existem também linhas de apoio telefónico às quais se pode recorrer, nomeadamente a linha telefónica SOS Voz Amiga, à Linha SOS Estudante e ao Telefone da Amizade.

Há que realçar que falar com alguém que apresente pensamentos de morte ou ideias relacionadas com o suicídio, não aumenta o risco de este se vir a consumar e é essencial que quem se encontra em sofrimento e considera o suicídio como a única solução viável, possa encontrar alguém disponível para o ouvir e ajudar a encontrar a ajuda necessária.

Não devem ser desvalorizadas as verbalizações acerca do desejo de morrer ou gestos auto-lesivos (com intenção suicida ou não), como “chamada de atenção”. Na base destes comportamentos está um sofrimento emocional que deve ser sempre valorizado, tenha ou não havido risco de morte.

É também muito importante diminuir o acesso a meios letais, nomeadamente a pesticidas, a medicamentos ou armas.

Há que ter especial cuidado com o modo como o suicídio é relatado pelos meios de comunicação social, de modo a que não sejam fomentados os comportamentos de imitação em pessoas já susceptíveis e que possam ser fornecidas informações facilmente acessíveis, sobre como pedir ajuda.

Os comportamentos suicidários representam um problema muito relevante em saúde, merecendo por isso uma atenção prioritária de todos os agentes envolvidos.

Dra. Jennifer Santos, Psiquiatra da Clínica do Montepio Nossa Senhora da Nazaré – Torres Novas
APM