Desde o início da história da civilização humana, que as doenças infeciosas, sobretudo epidémicas, se relacionaram com a qualidade do ar circundante, estando mesmo muito relacionadas com áreas insalubres.

Hipócrates, há 2400 anos, falava em miasmas, “vapores” resultantes da decomposição da matéria orgânica, sendo responsáveis pelas epidemias.

Esta ideia prevalece até ao séc. XIX, tendo mesmo existido a noção de que era possível criar matéria viva por geração espontânea, graças aos miasmas resultantes da decomposição.

Só com Pasteur, se prova que por ebulição e mantendo em ambiente controlado não existe proliferação de larvas, esta situação é corroborada por outros cientistas, e em 1876, pela primeira vez é isolada uma bactéria por Koch, graças a invenção do microscópio.

Segue-se a descoberta de outras bactérias e a tentativa de imunização da população. No entanto, a mesma nem sempre é atingível e, em 1935 é introduzida a quimioterapia antibacteriana sistémica com a aplicação das sulfonamidas (Dogmak). Passaram 5 anos para que Fleming introduzisse a penicilina; inicia-se assim a era da antibioticoterapia.

O desenvolvimento vertiginoso da aplicação de antibióticos deveu-se ao seu sucesso impressionante, quer se tratasse de antibióticos novos ou de quimioterápicos de síntese, com o conhecimento aprofundado do seu mecanismo da atuação, limitações e reações provocadas.

A aplicação de antibioterapia ganha contornos inimagináveis e inicia-se uma época áurea na sua utilização.

Contudo, verificou-se a nível bacteriano a capacidade de estas se adaptarem aos novos “inimigos” e assim surgem as primeiras resistências, as quais se vão multiplicando, dando origem infeções bacterianas multirresistentes, ou seja, bactérias que desenvolveram resistência a vários grupos de antibióticos, sendo difíceis de controlar.

As resistências antibioterapêuticas, assentam muitas vezes numa incorreta aplicação do antibiótico, e a um acesso desregrado ao mesmo.

A essência de que os antibióticos “curam” tudo, leva muitas vezes a população a pressionar os profissionais de saúde na aplicação do fármaco em situações para as quais não se coaduna. As complicações decorrentes das constipações e mesmo das gripes, podem contribuir para esta assunção, isto porque, a infeção viral fragiliza a barreira imunológica do paciente, a qual pode já estar comprometida pelas cas morbilidades inerentes ao mesmo, permitindo mais facilmente a instalação de infeções oportunistas de origem bacteriana, o que conduz inevitavelmente à instituição de antibioterapia.

Ao administrarmos antibióticos, estamos a debelar o nosso “exército” de bactérias saprófitas, que nos ajudam na defesa do organismo, bem como as que não o sendo são comensais, não causando dano ao hospedeiro, desde que em número controlado, podendo tornar-se patogénicas quando proliferam fora do contexto “normal”.

Os antibióticos podem atuar por inibição da multiplicação bacteriana (bacteriostáticos) ou por provocarem a sua morte (bactericidas).

A sensibilidade, ou não, das bactérias ao antibiótico determina a sua utilidade terapêutica, sendo que esta define o espectro de ação do mesmo. Diversas bactérias da mesma estirpe podem apresentar sensibilidades diferentes, sendo incorreto o uso do mesmo antibiótico, o qual pode determinar a seleção de bactérias resistentes. Esta sensibilidade ao antibiótico está constantemente em evolução, sendo o uso de antibióticos um dos fatores determinantes para esta alteração, que assenta na capacidade dos microrganismos de adaptarem a um ambiente adverso.

A crescente multirresistência aos antibióticos, é uma preocupação da comunidade científica perante esta ameaça que coloca em causa a execução de procedimentos médicos salvadores de vidas.

Numa abordagem mais holística, há que olhar para o uso dos antibióticos, não só na utilização ao nível dos cuidados de saúde, mas também na sua utilização ao nível da produção, e prevenção, ou seja, a utilização de uma forma abrangente em todo o ecossistema, desde animais, plantas e seres humanos, ainda que por bons motivos, está a acelerar o desenvolvimento e propagação da resistência aos antibióticos.

A água como recurso limitado e cada vez mais insuficiente frente às necessidades das comunidades, saneamento, bem como as fragilidades no sistema de saúde, tem contribuído para a emergência e propagação de agentes patogénicos resistentes.

Assim, está na mão de todos os intervenientes, quer profissionais de saúde, quer doentes e cuidadores a aplicação compliance terapêutica, para o bom uso do medicamento e por forma a conseguirmos uma abordagem mais sustentada da utilização dos antibióticos, os quais constituíram-se a grande vitória sobre as doenças infeciosas no séc. XX.

Em conclusão, os antibióticos têm sido usados com sucesso nas várias vertentes da sociedade humana com benefícios acrescidos, mas o seu uso indevido pode colocar em risco a própria espécie, ao colocar a mesma, indefesa perante a ameaça e bactérias resistentes.

1.”Terapêutica medicamentosa e suas bases farmacologicas”; Garrett e W. Osswald – Porto Editora (1983);

2. “IACG Antimicrobial Resistence – Relatório para o Secretário Geral das Nações Unidas” Abril 2019;

3. www.sns.gov.pt

4. www.acss.min-saude.pt

Glossário

Compliance – cumprimento e adesão à terapêutica

Abordagem Holística – Abordagem global de um tema

Patogénico – Agente infecioso

Saprófita – Microrganismos que se associam ao outro ser em benefício de ambos

Comensal – coexistência não nociva

Quimioterápicos de síntese – substâncias produzidas em laboratório para controlar a doença

Artigo de opinião de Ana Patuleia, responsável pela Fármácia Lacrobigense – Associação de Socorros Mútuos, sobre os antibióticos, o que são, como atuam e o seu uso racional, a compliance terapêutica necessária para debelar as infeções

Fonte: Postal do Algarve

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