Estaria disposto a suportar um aumento de 2% nos seus impostos ou prestações sociais para beneficiar de melhores cuidados de saúde, melhores pensões, creches ou habitação acessível? Metade dos portugueses ouvidos no âmbito do questionário Risks That Matter, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), divulgado nesta terça-feira, diz-se favorável a essa possibilidade se o propósito for melhorar o acesso aos cuidados de saúde. Um terço está disponível para fazê-lo por melhores pensões. Mas 32% não querem mais impostos.
As respostas a esta pergunta variam de acordo com o sexo, os rendimentos, o tipo de contrato de trabalho, a idade… “As prioridades diferem entre os grupos”, explica-se no estudo da OCDE. “Como seria de esperar, os pais são muito mais favoráveis a melhorias nos serviços de educação e os respondentes mais jovens têm maior propensão para priorizar a habitação acessível. Entrevistados mais velhos apoiam esmagadoramente as melhorias nas pensões, nos cuidados de saúde, e nos serviços de apoio na velhice.”

Dentro de cada um destes grupos também há algumas diferenças. Por exemplo, no nível de escolaridade de quem escolhe os cuidados de saúde como principal razão para suportar um eventual aumento de impostos. Há mais inquiridos com menos escolaridade (até ao 9.º ano) a escolher esta opção (50,7%) do que pessoas com o ensino superior (42,1%).
Entre quem diz que não quer aumentos de impostos, as diferenças surgem na idade (são as pessoas entre os 55 e os 70 anos a seleccionar esta opção), no tipo de contrato de trabalho (quem tem um contrato permanente tende mais a negar a possibilidade dessa troca) e nos rendimentos (quem tem rendimentos mais elevados responde mais que não quer mais impostos do que aqueles com rendimentos mais baixos).
Voltando aos cuidados de saúde, a par da Irlanda, Chile e Grécia, Portugal está entre os países onde uma maior proporção dos inquiridos admite pagar mais impostos ou contribuições em troca de melhores serviços.
O questionário Risks That Matter foi aplicado em 21 países da OCDE. Mais de 22.000 pessoas, com idades entre os 18 e os 70 anos, foram ouvidas em 2018 acerca daquilo que percepcionam como os riscos sociais e económicos a que estão expostas e sobre qual tem sido o papel dos seus governos na mitigação desses riscos.


Adoecer, a principal preocupação
Ficar doente, não conseguir fazer face às despesas e perder o emprego são as principais preocupações dos portugueses a curto prazo.
A possibilidade de doença é cabeça de lista, mencionada por quase dois terços dos inquiridos, o que coloca Portugal entre os países onde mais gente diz ter este medo — acima só a Finlândia e a Polónia. Tal como cá, em 14 dos 21 países abrangidos pelo inquérito da OCDE, adoecer é o principal receio.
Quando as questões incidem sobre as preocupações a longo prazo, três em cada quatro portugueses falam sobre a falta de segurança financeira na velhice. Quase metade também se diz preocupado em alcançar estatuto e conforto (relacionados com o emprego, rendimento, segurança) para si próprio e para os seus filhos.
E ter casa?
Neste tópico, as respostas também diferem entre grupos. De um modo geral, “as pessoas mais velhas estão mais preocupadas com as doenças e com a criminalidade, enquanto os mais novos inquietam-se com a habitação e as perspectivas para o futuro”.
“Em média, um terço dos inquiridos com idades entre os 20 e os 34 anos escolhe a manutenção de habitação adequada como uma das suas principais preocupações”, lê-se. O caso é particularmente grave nos países do Báltico, como a Lituânia e a Estónia, onde mais de metade dos jovens nomeia a questão da habitação como uma grande inquietação.
Ao nível dos rendimentos, as diferenças também são evidentes. “Inquiridos com menos rendimentos preocupam-se em ter dinheiro para uma casa e conseguir fazer face às despesas. Entre os que têm maior rendimento, o foco recai sobre os cuidados infantis e os cuidados continuados para familiares mais velhos”, detalha a OCDE.

Há quem receba apoio do Estado e não o mereça?
“Os países da OCDE têm alguns dos mais abrangentes sistemas de protecção social do mundo”, afirma a OCDE no parágrafo que introduz o capítulo que se foca no tema “satisfação e justiça”. Mas, mesmo assim, “as políticas não estão a alcançar todos os grupos da mesma maneira e nem sempre é possível corresponder às necessidades e expectativas das pessoas”.
Os níveis de satisfação em relação às políticas públicas são diferentes entre grupos e países. “De um modo geral, os mais velhos tendem a estar menos satisfeitos do que os mais novos, as mulheres mais insatisfeitas do que os homens, e os que se identificam como classe trabalhadora também menos satisfeitos do que a classe média e alta.”
Em Portugal, três quartos dos inquiridos sentem que não têm acesso a uma “quota justa” dos benefícios a que teriam direito tendo em conta as suas contribuições sociais e impostos. À nossa frente só a Grécia, Israel, México e Chile. Os dinamarqueses e os noruegueses são os que estão mais satisfeitos.
Quando a questão incide sobre se há muitas pessoas que recebem benefícios públicos sem os merecerem, os portugueses são os que mais concordam (88%). Na Estónia e Dinamarca menos de metade tem essa opinião.

Mesmo assim, é em Portugal que há um maior consenso sobre a necessidade de se cobrar mais impostos aos ricos para ajudar os pobres. Para 80% dos portugueses é isso que deve acontecer. A afirmação é menos popular na Estónia, Polónia e Dinamarca, onde só metade dos inquiridos é favorável a essa possibilidade.
“Chamada de atenção”
A OCDE também quis saber se as pessoas consideram que o governo de um dado país devia fazer mais, menos ou o mesmo para garantir a segurança social e económica dos cidadãos. Só em dois países — França e Dinamarca — é que a maioria respondeu que o governo deve continuar a fazer o mesmo. Em todos os outros se considera que deve ir mais além. Em Portugal essa é a resposta de 88% dos inquiridos.

As descobertas apresentadas neste estudo são “extremamente preocupantes”, diz Steffano Scarpetta, o director do Emprego, Trabalho e Assuntos Sociais da OCDE, no editorial que acompanha a publicação dos resultados. O relatório é uma “chamada de atenção” para os políticos.
“Há um claro descontentamento em relação às políticas sociais que existem actualmente”, continua o responsável. “E apesar de dados como estes, sobre percepções, poderem ser influenciados por muitos factores — como valores culturais e as condições económicas e sociais —, permanecem relevantes por oferecerem conhecimento sobre economia individual e as escolhas sociais e políticas.”

Fonte: Jornal Público