No passado dia 7 de Maio, a APM-RedeMut promoveu uma conferência no Auditório da Associação Mutualista Montepio Geral, onde reuniu vários especialistas para debater sobre o tema “Integração de Cuidados – Cuidar em Casa”, um assunto da máxima importância quer para os cuidadores de saúde, quer para as famílias que aborda os cuidados sociais e de saúde prestados ao doente no próprio domicílio.

Carlos Beato, Presidente das Residências Montepio, fez a abertura da conferência com uma breve descrição das valências das Residências. São centros residenciais que incluem residências geriátricas, residências assistidas, centros de dia e serviços pessoais ao domicílio com a prestação de um atendimento profissional prestado por uma equipa multidisciplinar de cuidados individualizados e continuados de saúde. Atualmente dispõem de 7 residências, que brevemente vão passar a 8, com 92 camas residenciais, 87 cuidados continuados, 450 trabalhadores e 250 prestadores.

Seguiu-se Marques Pereira, Presidente do Conselho de Administração da APM-RedeMut, que destacou a importância da APM-RedeMut estar associada e ser parceira das Residências Montepio, nesta iniciativa de promoção de um tema “cuja atualidade e interesse são indiscutíveis”. A esperança média de vida está a aumentar, pelo que o universo da população com idade superior a 80 anos é cada vez maior e mais complexo havendo cada vez mais idosos dependentes de cuidados que permanece na sua casa ou na casa de familiares. Por outro lado, também existem cada vez mais pessoas com internamentos hospitalares muito prolongados por falta de alternativas, quer económicas quer familiares e/ou institucionais, que lhes permitam o acesso a internamento em lares ou centros de dia comparticipados pela Segurança Social.

Muitos dos Serviços de Apoio Domiciliário – SAD conseguem colmatar um grande número de carências quotidianas do idoso na sua própria habitação adiando a necessidade de institucionalização, mas quando é necessária uma intervenção mais especializada ao nível dos cuidados de saúde, estes serviços são claramente insuficientes. “É isto que sentem muitas das Associadas da APM-RedeMut que prestam este tipo de serviços aos idosos mais dependentes, dificuldades no confronto com as questões de assistência na doença”.

Marques Pereira acabou por terminar reforçando que “é por isto que é de enorme importância esta nossa Conferência, analisar os novos caminhos e metodologias que possam proporcionar às entidades cuidadoras, em regime de complementaridade, um conjunto de informações que capacite e qualifique as equipas cuidadoras para uma melhor assistência às reais necessidades dos idosos.

Constantino Sakellarides, Professor Catedrático jubilado da Escola Nacional de Saúde Pública deu início ao Tema desta Conferência e chamou a atenção para a avaliação da saúde mental da população portuguesa, estando na base de muitos problemas de saúde. Há a necessidade de se avaliar os problemas da pessoa na sua totalidade isto porque, por exemplo “ter diabetes, hoje em dia, já não é grave e conseguimos viver com isso e ter uma vida normal, com a medicação adequada, mas ter diabetes e uma depressão já é um problema maior”. No âmbito do tema dos cuidados de saúde em casa, salientou que estes devem funcionar integrados e não podem ser afastados do sistema de saúde. Deve haver uma maior coordenação e esforço de atuação comum. Fez a comparação entre Portugal e outros países da europa e conclui que “Em Portugal envelhece-se mal, estamos pouco satisfeitos com a vida e isto leva a um esforço maior”, reforça.

Manuel Lopes, Coordenador da Comissão de Coordenação da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados destacou a importância das tecnologias de informação, nomeadamente a teleassistência, para domiciliar doentes. Estas novas ferramentas ajudam os familiares cuidadores a terem mais segurança nos cuidados que prestam aos seus doentes permitindo uma ligação aos profissionais de saúde, sempre que necessário, no esclarecimento de dúvidas ou na prestação de informações ou diagnósticos mais precisos.

No entanto, Manuel Lopes alerta para o facto de “apesar da rede de cuidados em casa ser muito mais económica e ter respostas importantes, ainda tem muitos problemas. Temos de trabalhar as famílias, de as encorajar, as características das casas ainda são um grande obstáculo à ideia de receber pessoas em casa”.

O SNS tem 1800 vagas neste sistema mas há falta de muitas mais. Existem 289 equipas a funcionar em todo o país (12 horas com resposta física, 12 horas através de atendimento telefónico). Nas zonas urbanas, onde há maior carência, é onde existe mais falta de equipas. Cada equipa é formada por 9 pessoas e tem um valor pago pelo Estado de 61 euros dia por pessoa.

O custo deste tipo de assistência ao domicílio, com estas equipas, fica muito mais barato ao Estado do que se o paciente estiver numa instituição, porque estes cuidadores são essencialmente auxiliares, enfermeiros e fisioterapeutas, que são os cuidados básicos que as pessoas precisam. Quase não há médicos nestas equipas. Além disto, a satisfação do doente é muito maior, porque está em sua casa.

No último painel foram apresentadas as boas práticas das Residências Montepio e da União Mutualista Nossa Senhora da Conceição – Montijo.

A técnica Rosário Piñeiro, apresentou o serviço SAD prestado pelas Residências Montepio. O serviço de apoio domiciliário conta com serviços de enfermagem, fisioterapia e médico, sempre com interligação com o hospital. Antes do doente sair do hospital, a equipa das residências montepio faz uma avaliação das necessidades do doente junto da equipa médica e de enfermagem do hospital para que, quando o doente chegue a casa, saibam prestar o acompanhamento necessário.

A União Mutualista Nossa Senhora da Conceição também presta este apoio domiciliário (higiene, refeições, tratamento de roupas, gestão de medicamentos, socialização e acompanhamento às consultas, se necessário) entre Montijo e Alcochete, tendo um acordo com a Segurança Social desde 2000, acompanham atualmente 80 pessoas com 21 técnicos no terreno.

“Temos uma longa lista de espera, devem ser criadas mais sinergias de interajuda entre instituições para resulte num apoio maior e mais eficiente. Nós estamos abertos a parcerias, somos muito flexíveis”, afirmou a técnica Cátia Lopes.

Nesta Associação também existe a área da formação, em que cuidamos do cuidador, dá-se formação e ensina-se a pessoa que cuida do doente para que possa ser o mais autónoma possível: “ensinar a aliviar as costas, a fazer transferência da cama para a cadeira, pequenos curativos, pequenas iniciativas mas que são muitos importantes para quem cuida”.

No encerramento, tivemos a presença de Elsa Baião, Responsável pela Unidade de Cuidados Continuados Integrados da ARS de Lisboa e Vale do Tejo, que destacou a importância dos cuidados de saúde domiciliados na medida em que “o que interessa são as pessoas ficarem na sua própria casa em contato com o seu meio envolvente”.

Elsa Baião considera que “as respostas do SNS estão desadequadas e escassas, de ano para ano há um envelhecimento da população, doenças crónicas, etc. e as populações cada vez mais necessitam de cuidados de saúde. Este paradigma tem de mudar, já não se consegue satisfazer as necessidades da população”.

“Nos últimos anos, e devido às contingências da vida profissional e familiar de cada um, há cada vez maior necessidade de institucionalizar as pessoas que precisam de cuidados de saúde, mas isto é algo que queremos mudar, é urgente que se faça esta mudança, criando meios para podermos cuidar as pessoas no seu lar. Isto porque a institucionalização das pessoas põe em causa a liberdade dos idosos e a sua vontade própria, não têm liberdade de escolha”, reforça Elsa Baião.

Elsa Baião aplaudiu a iniciativa desta Conferência como forma de divulgar e promover as alternativas à institucionalização. O único problema que o Estado e a Segurança Social têm é o de conseguir articular todas as respostas e os vários recursos que existem (públicos, privados, instituições, voluntários, autarquias, família, e o próprio utente, que também tem uma palavra a dizer e muitas vezes é esquecido). “É necessário que o conjunto de instituições diferentes consigam cumprir objetivos comuns que são o bem-estar do idoso e dos doentes, e isto, por vezes, torna-se muito difícil”.

Falou-se também da questão do financiamento, que deve ser adequado aos objetivos traçados, embora nem sempre funcione assim e da questão do reconhecimento dos cuidadores informais.

Em jeito de resumo, pode concluir-se que, numa decisão de necessidade de cuidados de saúde, embora existam instituições, o mais importante são as pessoas e é nelas que temos de pensar, na sua vontade e nas necessidades. Há que responder às suas espectativas e satisfazer as suas necessidades, centrando-nos nas pessoas e não nas instituições.

Elsa Baião termina dizendo que “acima de tudo somos parceiros, o Estado não chega a todo o lado e as entidades privadas, nomeadamente as mutualidades, são os braços e as pernas do estado, para podermos chegar a mais lados”.