A Constituição da República Portuguesa é bem clara ao consagrar três setores para a economia: a economia pública, a economia privada e a economia cooperativa e social.

No entanto, e apesar de, na prática, haver um setor que prevalece sobre os outros dois, a nossa Constituição não estabelece qualquer hierarquia entre eles, ou seja, na nossa Lei Maior não há uma economia que seja a primeira e as outras a segunda ou a terceira.

O Estado é, por assim dizer, o dono da economia pública, ou melhor, é o proprietário dos meios de produção que servem essa economia. Quanto ao setor privado – o maior na quase totalidade dos países -, é formado por empresas de capital em que o poder de decidir e a distribuição dos resultados depende da parte de capital detido por cada um.
No setor cooperativo e social, a posse e a gestão dos meios de produção é coletiva. Nas organizações deste setor – cooperativas, mutualidades, misericórdias, fundações e associações altruísticas – de um modo geral, a cada homem ou mulher corresponde um voto.

Em toda a economia social, os eventuais excedentes são reinvestidos na atividade da organização, não existindo qualquer distribuição de resultados sob a forma de dividendos, isto é, ao contrário do setor privado, não existe apropriação pelos “donos do capital” da riqueza produzida.

Ora é este modo diferente de gerir a economia, de criar riqueza e de a distribuir, esta maneira de ser e de se afirmar democrática, participativa e plural, criativa e libertadora, que parece incomodar e, porque não o dizer, até assustar aqueles que optam pela opacidade em vez da transparência, pelo individualismo em vez da solidariedade.

São estes mesmos receios, a par dos apetites inconfessados de “quem desdenha quer …” lucrar, que podem explicar a sanha dos que, privilegiando interesses pessoais, à revelia e no desrespeito da Constituição da República, teimam em não querer reconhecer o valor do setor cooperativo e social, nomeadamente na sua vertente mutualista e solidária, em que o Montepio Geral é a principal entidade.
Ao longo dos seus quase 180 anos de existência e com mais de 600 mil associados, a Associação Mutualista Montepio Geral resistiu a tudo: guerras, pestes, ditaduras, várias mudanças de regime e, sobretudo, tem sabido resistir aos apetites vorazes dos que veem na sua destruição, uma oportunidade para si mesmos, em detrimento dos princípios e valores do mutualismo e das novas oportunidades abertas pelas “portas que abril abriu”.
O Grupo Montepio e designadamente a sua Caixa Económica, não obstante as dificuldades decorrentes das crises por que todos temos passado, continuam bem e recomendam-se, criando até uma especial apetência a quem gostaria, seguramente, de ver esta última privatizada.

É neste complexo e sensível quadro, que a Associação Mutualista Montepio Geral tem demonstrado uma robustez notável continuando a capitalizar a sua caixa económica e a manter e reforçar uma oferta social multivariada em benefício dos seus associados e do interesse geral.

Apetece por isso perguntar: afinal quem tem medo do Montepio?

In Jornal de Negócios