Atualmente, o mutualismo assegura práticas farmacêuticas do mais alto nível, estando as suas farmácias certificadas de acordo com os mais elevados padrões de qualidade.

Há mais de cem anos, durante o século XIX e princípios do século XX, Portugal viveu uma fase de acentuada turbulência e conflitualidade política, encontrando-se isolado internacionalmente, económica e financeiramente dependente, com meios de produção de riqueza incipientes, maioritariamente ruralizado, o que gerou uma significativa franja da sua população extremamente pobre e socialmente desprotegida.

Foi neste contexto que as associações, nomeadamente as de socorro mútuo, hoje associações mutualistas, tendo plasmado nos seus estatutos a salvaguarda da “dignidade humana em toda a sua plenitude”, intervinham em múltiplas áreas: na educação, na formação e inserção de grupos socialmente desfavorecidos, na promoção da previdência e ação social, na prestação de apoio em cuidados básicos de saúde, na doença e no desemprego.

Mutualidades houve que ousaram avançar para uma maior cobertura das carências sociais existentes à época, investindo todas as suas energias e o seu saber na criação de outras valências, como é o caso da assistência medicamentosa. Inicialmente, através de protocolos com os boticários existentes e, mais tarde, por via da abertura de farmácias, propriedade e exploração das próprias associações mutualistas.

Para ultrapassar o impedimento legal que há um século proibia às associações mutualistas a abertura de farmácias, estas agruparam-se em federações e ligas como aconteceu em Gaia, em Coimbra, no Porto e mais tarde em Lisboa, sendo estas as primeiras instituições a abrirem farmácias de caráter eminentemente social.

A reação dos interesses corporativos dos “boticários” não tardou a manifestar-se, mas os mutualistas a tudo resistiram, como se pode ler neste extrato do Relatório e Contas de Liga de Gaia de 1911:

“É certo que as Ligas se firmaram indestructivelmente, por que os seus magníficos resultados em favor das associações de socorro mútuo são evidentes; mas também é verdade que os inimigos d’estas instituições – os seus naturais inimigos por que lhe feriram os seus interesses – não desarmam na lucta desleal e traiçoeira que imfamemente lhe movem, procurando aniquila-las. Os mutualistas, porém, estão atentos e decididos a empregar todos os exforços – todos! – em defeza d’uma causa justíssima.”

Este tipo de dificuldades de inspiração corporativa mantém-se nos dias de hoje, embora se deva assinalar o conforto que o decreto-lei 109/2014 de 10 de julho veio assegurar às farmácias sociais que já eram propriedade das associações mutualistas antes de setembro de 2007.

Atualmente, o mutualismo assegura práticas farmacêuticas do mais alto nível, estando as suas farmácias certificadas de acordo com os mais elevados padrões de qualidade. Acresce que as associações mutualistas são organizações sem fins lucrativos o que significa que se tiverem excedentes estes não são distribuídos a ninguém, mas sim integralmente reinvestidos em respostas sociais.

Presentes no âmbito da proteção social e contribuindo para relações mais solidárias dos seres humanos, para a redução da pobreza e doutras formas de exclusão social, as mutualidades vivem de forma empenhada um dos principais desafios que se colocam ao movimento mutualista: o desafio de saber reunir a tradição e o passado, que nos honram, aos desafios e perspetivas do futuro, que nos motivam.

Prémio Cooperação e Solidariedade António Sérgio 2017

 A cerimónia pública de entrega do Prémio Cooperação e Solidariedade António Sérgio 2017 vai realizar-se em Coimbra, na antiga Igreja do Convento de São Francisco, no próximo dia 22 de janeiro, contando, no seu encerramento, com a presença do ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. O Prémio foi criado pela CASES em 2012 e constitui uma forma de homenagear as pessoas singulares e coletivas que, em cada ano, mais se tenham distinguido em domínios relevantes para a economia social, havendo quatro categorias e um prémio especial personalidade do ano.

 A força do cooperativismo na comunidade valenciana

O cooperativismo valenciano é o terceiro em importância em Espanha, depois da Catalunha e Andaluzia. Está presente em todo o território da região, com empresas de várias dimensões e setores. Existem mais de 2.500 empresas cooperativas, que geram 80.000 empregos diretos. Estima-se que cerca de um milhão e meio de pessoas são membros de pelo menos uma cooperativa, o que representa mais de 30% da população da comunidade valenciana. A economia social em Espanha é formada por 43.059 empresas, 2.219.733 trabalhadores e 19.876.969 membros (associados e cooperadores).

Luis Amorim, Membro do conselho de administração da Associação Portuguesa de Mutualidades

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico